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O ETERNO LOCKDOWN DA NEGRITUDE

Lockdown tem sido a palavra mais pronunciada nos últimos tempos. O termo significa “confinamento” e por essa razão tem muitas semelhanças com a questão racial. O racismo exige de nós um diálogo e a maioria das pessoas não estão dispostas a fazer porque desde sempre, na sociedade, o lugar do negro é bem separado. Tentarei fazer uma analogia aproximando racismo e confinamento, analisando os dois vocábulos nas suas particularidades.

            O negro brasileiro vive um eterno lockdown. O primeiro deles aconteceu nos porões dos navios negreiros, vindos da África, de onde eram trazidos. Ali, num ambiente de miséria e violência, tiveram seus sonhos e projetos confinados e muitas vezes o suicídio era a única forma de sair desse martírio.

O segundo lockdown, foi um decreto da Princesa Izabel e teve início em 14 de maio de 1888. Após terem comemorado em profusão a liberdade “conquistada” no dia anterior, o negro se vê sem dinheiro, sem comida, sem casa, sem profissão, sem estudo. Como começar uma vida do nada??  Centenas morreram de frio e de fome pelas estradas. Uma liberdade sem reparação cujas seqüelas são sentidas até o dia de hoje. Na hora da disputa essa diferença se torna cruel. Mesmo tendo conhecimento e experiência, o negro e a negra são preteridos. Escolhem sempre que tem mais presença. Quem se adéqua ao padrão. É o jogo. Vida que segue.

O terceiro lockdown é o encarceramento sistemático do negro no momento de seu maior vigor e força física. Uma grande perda enquanto força de trabalho. Esse encarceramento tem muitos atores envolvidos: tem o Poder Judiciário, na pessoa do juiz que condena por gramas de maconha/cocaína e faz vista grossa para toneladas em helicóptero e aviões da FAB.  Essa política de combate à droga não obteve resultado em nenhum país. É preciso repensar essa questão. Tem também o empregador que impõe uma prisão perpétua ao ex-presidiário no momento em que lhe fecha as portas para uma possível reabilitação. Tira-lhe a chance de refazer a sua vida por não conseguir ter um trabalho, obrigando-o a um círculo vicioso e a sair da cadeia sempre pior do que entrou. Também os meios de comunicação e a imprensa são coniventes ao não se interessarem pelo tema e nem propor um debate sério na sociedade. Tem o político que não inclui o racismo em suas pautas (talvez se o preso votasse, quem sabe a situação mudaria?). Tem a Educação que se cala ao não questionar o racismo. Tornando-o como uma coisa natural, ela reproduz enquanto sistema. Fecha os olhos e não discute o assunto num país onde mais da metade da população é preta. E veja o absurdo: um preso custa aos cofres públicos 28.800 ao ano, cerca de 2.400 ao mês e uma criança na escola custa ao Governo 3.349,56 ao ano, o equivalente a 279,13 ao mês. Onde vale a pena investir de verdade??

O quarto lockdown é para mim o mais cruel, porque não tem volta. Ele é eterno. Fatal. Sem segunda chance. Refiro-me ao assassinato de jovens negros, mortos pela polícia de forma violenta. Essa polícia nunca escondeu que é racista. E o pior desta história é que de tanto ouvirmos relatos assim, soa-nos como algo natural. Mas… Por que é natural o jovem morrer baleado pela polícia? Por que é natural a morte nas favelas?

Isso não é comum. Tem que parar a máquina da morte. Não se pode normalizar algo que provoca tanto horror. Não se pode concordar com essa formação de policiais que mais se assemelha a capitães do mato. Racismo normatizado. Sei que o assunto causa um certo mal estar. Ninguém quer ver uma preta, com cara de cozinheira, falando o que ninguém quer ouvir. Botando o dedo na ferida, fazendo pensar. Tenho a certeza de que estou fazendo algo pela minha geração. Sou resistência!

O quinto e último lockdown é a pandemia.  Ela veio para bater em quem sempre apanhou. Já está comprovado que 60% dos óbitos são de pretos e pretas. Talvez você pergunte: mas o vírus é racista?? Não. Não é racista, ele simplesmente ataca que tem comorbidades e apresenta baixa imunidade. O negro é criado na falta, na ausência permanente. Responde aí:

Qual etnia nunca consegue fazer um tratamento de saúde completo, com todos os exames e remédios exigidos pelo médico, por não ter tempo e dinheiro suficiente?

Qual etnia não tem uma alimentação adequada com todos os nutrientes por nunca ter condições para tal?

Qual etnia que, por não possuir veículo próprio, enfrenta ônibus e trens lotados não conseguindo manter o distanciamento recomendado?

Qual etnia é forçada a sair de casa para trabalhar pois suas profissões fazem sempre parte dos serviços essenciais?

Você pode responder: é o pobre. Parabéns!! Sua resposta está certíssima.

Só que entre pobres o preto e a preta são sempre os mais pobres.

Não tem jeito. O racismo sempre culmina com a morte. 

                                                        Abraço Dalgiza.

Sobre Antenor Gonçalves Neto

Jornalista - DRT 18587/MG

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